Evânio Amaral
Diretor Comercial e Marketing
Mercado, relacionamento e crescimento.
Lidera as estratégias Comercial e de Marketing da SAFOL, conectando mercado, marca, clientes e oportunidades para impulsionar o crescimento do negócio.
Escolher onde abrir uma loja vai muito além de encontrar um imóvel com bom tamanho e aluguel dentro do orçamento. O que existe ao redor pesa tanto quanto o imóvel em si. É por isso que existem ruas inteiras de lojas de móveis, regiões conhecidas pelas concessionárias, avenidas com várias farmácias e centros comerciais onde empresas do mesmo segmento operam praticamente lado a lado.
À primeira vista essa proximidade parece contraditória. Por que abrir um negócio justamente onde já existem concorrentes? Uma das explicações está na economia de aglomeração, conceito que ajuda a entender por que empresas obtêm vantagens ao se instalar próximas umas das outras e por que certas regiões viram referência de compra para o consumidor.
O contexto brasileiro dá escala ao problema. Segundo a Pesquisa Anual de Comércio do IBGE, o país tem 1,5 milhão de empresas comerciais distribuídas em 1,7 milhão de unidades locais. Cada uma delas tomou uma decisão de endereço. Entender a lógica por trás dessa escolha é o que separa um ponto que sustenta a operação de um ponto que a sufoca.
Economias de aglomeração são os benefícios que surgem da concentração geográfica de empresas e atividades econômicas em um mesmo território. Negócios agrupados compartilham infraestrutura, mão de obra, fornecedores e serviços complementares. No varejo, compartilham principalmente algo mais valioso: um fluxo de consumidores que já reconhece aquela área como destino de compra.
Pense em uma rua conhecida pela venda de móveis. Uma loja isolada precisa convencer o consumidor de duas coisas ao mesmo tempo, comprar com ela e ir até aquele endereço. Quando existem dezenas de estabelecimentos semelhantes concentrados, o próprio território ganha identidade comercial e o cliente passa a raciocinar por região, não por loja: "preciso comprar móveis, vou até aquela avenida". A concentração de concorrentes ajuda a formar a demanda do local.
Esse efeito é particularmente forte no varejo porque a comparação faz parte do processo de compra de boa parte dos produtos. Quanto mais o consumidor precisa comparar, mais ele valoriza encontrar várias opções no mesmo lugar.
O primeiro motivo é a comparação. Alguém que quer comprar um sofá tende a preferir uma avenida com seis lojas de móveis a uma loja isolada, porque se não encontrar o produto ali não precisará atravessar a cidade. O agrupamento reduz o esforço de pesquisa do comprador e essa conveniência aumenta a atratividade da região inteira.
O segundo motivo é menos óbvio: um negócio gera fluxo para outro. Uma academia perto de uma loja de suplementos, uma farmácia próxima a clínicas médicas, um supermercado dentro de um centro comercial. São atividades diferentes que compartilham público. Um cluster de comércio não é formado apenas por empresas idênticas, e sim por atividades que atendem o mesmo consumidor em momentos distintos.
Essa distinção é decisiva na hora de avaliar um endereço. Concentração de concorrentes diretos e concentração de negócios complementares produzem efeitos diferentes, e confundir os dois leva a decisões ruins. O mesmo raciocínio aparece quando se discute arquitetura comercial e seu impacto no PDV: o espaço não existe isolado, ele existe dentro de um contexto.
Não. E também não é sempre bom. Essa é a conclusão mais importante para quem está escolhendo um ponto.
A presença de concorrentes indica que existe demanda naquela região, e vários estabelecimentos semelhantes podem transformar o local em referência de categoria. Mas existe um limite claro: quando a oferta cresce mais que a demanda, cada operação passa a disputar uma fatia menor do mesmo mercado.
Regiões comerciais muito valorizadas também cobram caro pelo privilégio. O custo de estar em um polo consolidado aparece em várias frentes:
Por isso a pergunta certa não é "há muitas lojas aqui, então preciso estar aqui também". A pergunta certa é: o fluxo e a demanda desta região sustentam mais uma operação com o meu posicionamento?
O varejo alimentar tem uma dinâmica própria porque localização e conveniência pesam muito na decisão do consumidor. O setor também é denso: o Ranking ABRAS 2026 aponta 439.728 lojas de autosserviço no Brasil, crescimento de 3,6% sobre o ano anterior. A disputa por bons pontos é real e crescente.
Num supermercado de bairro, proximidade das residências, facilidade de acesso e agilidade valem mais do que estar ao lado de concorrentes diretos. Abrir colado a outros supermercados semelhantes raramente é a melhor aplicação do conceito nesse formato.
O ganho vem das atividades complementares. Um supermercado se beneficia do fluxo que outros negócios já criaram quando está próximo de conjuntos residenciais, padarias, academias, lojas de serviços, pequenos centros comerciais e vias de deslocamento diário. O consumidor passa no mercado depois da academia ou na saída do trabalho, resolvendo várias necessidades no mesmo percurso.
Uma vez definido o endereço, a organização interna passa a determinar quanto desse fluxo vira venda. A setorização de supermercado é o que traduz movimento de pessoas em circulação produtiva dentro da loja.
Farmácias oferecem o exemplo mais didático de aglomeração por complementaridade. É comum encontrá-las perto de clínicas, hospitais, laboratórios e consultórios, e a relação é direta: parte de quem usa um serviço de saúde precisará comprar medicamentos logo em seguida.
O setor também está em expansão acelerada. Segundo o ranking da Abrafarma, compilado pela FIA-USP, apenas as grandes redes associadas somaram 11.688 pontos de venda em 2025, alta de 5,9% em um ano. Fluxo bom não significa espaço livre. Uma região pode ter excelente circulação ligada à saúde e, ao mesmo tempo, já estar saturada de farmácias.
Como farmácias trabalham com itens de recompra frequente, acessibilidade e conveniência são determinantes. Depois de escolhido o ponto, a conversão depende de como o espaço interno é montado, e organizar o layout das gôndolas de farmácia passa a ser tão estratégico quanto o endereço.
Nesse segmento a concentração de empresas costuma ser vantajosa. Uma região pode reunir lojas de materiais, depósitos, acabamentos, tintas, ferramentas e iluminação, permitindo que o cliente resolva várias etapas da obra na mesma área. O consumidor chega ao polo já com intenção de compra, o que reduz o esforço de atração da loja individual.
Como boa parte desses produtos envolve comparação de preço, especificação técnica e acabamento, estar em um polo reconhecido coloca a empresa no caminho natural de quem está pesquisando. O raciocínio vale igualmente para operações de home center, que combinam variedade e volume.
Aqui, porém, características operacionais ganham peso desproporcional. Um endereço movimentado não serve se o imóvel travar a operação. Recebimento de mercadoria volumosa exige avaliar acesso de caminhões, área de carga e descarga, capacidade de estoque e espaço de movimentação interna.
Sim, e talvez com intensidade ainda maior. Uma loja pequena e isolada precisa gerar sozinha praticamente toda a atração para o próprio endereço. Já uma operação instalada em galeria, centro comercial ou rua movimentada recebe pessoas que foram até ali por outro motivo. Esse efeito é decisivo para negócios que dependem de descoberta e compra por impulso.
O contrapeso é o custo. Quanto mais desejado o ponto, maior tende a ser o aluguel, porque o preço já embute o fluxo que o local entrega. A pergunta não é quanto custa o aluguel, e sim quanto aquele endereço contribui para o faturamento da operação.
A economia de aglomeração entra na análise, mas não decide sozinha. Uma avaliação completa combina sete dimensões.
Antes de procurar endereço, defina quem precisa chegar até ele. O cliente mora na região ou trabalha por perto? Vai de carro, a pé ou de transporte público? Faz compra planejada ou por conveniência? Essas respostas mudam completamente o que significa "bom ponto". Uma localização excelente para um mercado de proximidade pode ser péssima para uma loja de móveis de grande porte. Mapear os diferentes tipos de consumidores ajuda a tornar essa definição concreta.
"Passa muita gente aqui" é a frase mais repetida na avaliação de imóveis comerciais, e a menos útil. Uma avenida com milhares de veículos por dia pode ser ruim se for difícil entrar, estacionar ou enxergar a fachada. Volume sem qualificação não é público potencial. Analise quem passa, em quais horários, por que passa, como se desloca, quanto tempo permanece e quais estabelecimentos frequenta.
Abra um mapa, identifique os principais concorrentes e visite-os. Observe porte, posicionamento, movimento, mix, público e diferenciais. O objetivo não é apenas descobrir onde não abrir. Uma concentração de empresas revela um polo consolidado, enquanto uma área vazia pode significar oportunidade ou simplesmente ausência de demanda. É essa ambiguidade que torna a visita obrigatória.
Esta é a aplicação mais produtiva do conceito. A pergunta a fazer é: quais outros negócios atendem o mesmo consumidor que eu sem vender a mesma coisa? Uma loja infantil se beneficia de escola ou clínica pediátrica por perto, um pet shop de clínicas veterinárias, uma farmácia de um polo de saúde. O entorno deve ser lido como ecossistema, não como lista de concorrentes.
Um imóvel pode estar no bairro perfeito e ainda assim ser um ponto ruim. Fachada escondida reduz a percepção da loja, e acesso complicado afasta consumidor. Detalhes de circulação pesam mais que metros de distância. Avalie entrada e saída, estacionamento, transporte público, travessias de pedestres, sentido das vias e possibilidade de carga e descarga.
Encontrar a localização é metade da decisão. A outra metade é responder se o espaço permite montar a loja que o negócio precisa. Formato da planta, pilares, pé-direito, entrada, estoque, áreas de apoio e circulação definem a operação futura. Aluguel atraente não compensa uma planta que inviabiliza a experiência de compra.
Escolher um ponto é apostar no futuro do entorno. Novos empreendimentos residenciais, mudanças viárias e chegada de grandes geradores de fluxo transformam o potencial de uma área, para melhor ou para pior. Observe para onde a região está caminhando, não apenas como ela funciona hoje.
Quando existe compatibilidade entre o negócio e a região, a concentração comercial entrega benefícios concretos:
A mesma concentração que atrai também pressiona. A primeira consequência é a concorrência direta: quando várias empresas disputam o mesmo consumidor, preço, mix, atendimento e experiência de compra passam a ser decisivos. A régua competitiva sobe junto com o fluxo.
Locais disputados costumam ter imóveis mais caros, estacionamento escasso, congestionamento e disputa por mão de obra. Existe ainda a comparação imediata: com cinco concorrentes ao redor, o consumidor compara com facilidade e uma loja sem posicionamento claro perde espaço rápido.
A resposta depende do comportamento de compra do seu cliente. Quando o consumidor gosta de comparar opções e aceita se deslocar até um polo específico, a proximidade entre concorrentes joga a favor. Em compras orientadas por conveniência, urgência ou proximidade residencial, uma área com demanda pouco atendida costuma render mais.
A diferença fica clara no contraste entre comprar um sofá e comprar leite. Para escolher um sofá, o consumidor reserva uma tarde e visita várias lojas. Para repor o leite que acabou no café da manhã, ele busca a opção mais próxima e rápida. É o comportamento de compra que define a leitura correta da aglomeração.
Depois de definir a localização, começa a etapa que converte fluxo em venda: transformar o imóvel em um ponto de venda funcional. A localização traz pessoas até a porta, mas é o ambiente interno que facilita ou atrapalha a compra.
Layout, circulação, setorização, exposição e mobiliário determinam esse resultado. Planejar o layout no varejo desde a assinatura do contrato evita descobrir tarde demais que a planta escolhida não comporta a operação imaginada. Endereço e projeto interno são a mesma decisão em duas etapas.
É o conjunto de benefícios gerados pela concentração geográfica de empresas e atividades econômicas, como compartilhamento de infraestrutura, mão de obra, fornecedores e, no varejo, de um fluxo de consumidores que já reconhece a região como destino de compra.
Depende do comportamento de compra. Em categorias em que o consumidor compara opções, como móveis e materiais de construção, a proximidade tende a ser vantajosa. Em compras de conveniência e urgência, como supermercado de bairro e farmácia, costuma ser melhor buscar demanda pouco atendida.
É a concentração de empresas de um mesmo setor ou de setores complementares em uma região delimitada, que passa a ser reconhecida pelo consumidor como referência para determinada categoria de produto.
Perfil do consumidor, qualidade do fluxo, concorrência instalada, negócios complementares, visibilidade e acesso, características internas do imóvel e potencial futuro da região.
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Evânio Amaral
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23 de setembro de 2026
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